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| José Casanova: Opinião sobre aplicação de novas tecnologias à arbitragem do futebol |
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Foi no decorrer do programa possível observar uma argumentação conservadora e falaciosa por parte de alguns dos representantes do futebol Luso, e não só, com destaque para alguns dos "nossos" árbitros top de futebol, sem que à mesma tenha sido contraposta a necessária argumentação.
Obviamente que à imagem de outras modalidades desportivas (bastante mais avançadas nesta temática - Rugby, Voleibol, Volei de Praia, Ténis, etc.) em que o recurso aos sensores, microchips, ou imagens televisivas são utilizados, nunca o principio da soberania do arbitro deixou de ser respeitada, isto obviamente em devida conjugação com o supremo interesse da verdade desportiva. O exemplo paradigmático é o do "Rugby", onde como muitos tiveram oportunidade de ver recentemente, é o próprio árbitro quem solicita o parecer de um "painel de júri" através da visualização de imagens a propósito de uma dúvida eventual que tenha numa situação que se possa considerar de maior relevo e portanto decisiva para a verdade desportiva (tal como: validação de ensaio, sanção disciplinar grave, etc.).
O principio fundamental a estabelecer para o futebol teria de ser o de que, as situações de visionamento de imagens, e/ou recurso a outras tecnologias, só se poderia aplicar a casos objectivos de julgamento e nunca a casos de interpretação. Assim o árbitro seria absolutamente soberano a interpretar intenções (tais como: de atraso de bola, de jogar ou não a bola com a mão, etc.), enquanto o recurso à tecnologia seria a aplicar somente a factos objectivos (tais como: ultrapassou ou não a bola a linha de baliza? Houve ou não fora de jogo na origem do golo? Estava o jogador dentro ou fora da área quando sofreu uma falta, etc.). Na maior parte destas situações o jogo está já parado como consequência da existência e assinalar por parte do árbitro de uma falta, de um pretenso golo, etc., sendo que os casos em que tal se não verifica serão muito raros (entrou ou não a bola na baliza, existiu ou não uma agressão, etc.), e então aí, excepcionalmente o árbitro teria o poder de parar o jogo e solicitar o averiguar da jogada através a revisão das imagens. São falaciosos os argumentos da FIFA relativamente às paragens de jogo, porquanto poderia ser facilmente regulamentado o numero de vezes em que uma equipa teria o direito de solicitar o recurso a meios tecnológicos no decorrer do jogo (tal como no Ténis), sendo que todas as demais situações, aquelas que dependessem do arbitro deveriam ser automaticamente implementadas por iniciativa directa do mesmo e sempre que necessário. Em termos estatísticos estou certo que as mesmas teriam muito menos peso no jogo do que as actuais paragens provocadas pelas equipas. Mais, essas supostas paragens para revisão das imagens não contabilizariam na realidade como paragens no jogo, já que ao serem visualizadas nos ecrãs gigantes dos estádios (tal como o Rugby nos "ensinou") seriam antes uma componente mais a acrescentar ao espectáculo, contribuindo ainda para a promoção de uma imagem mais democrática e aberta da arbitragem ajudando assim a diluir um certo espectro de corporativismo que à mesma anda associada. São também falaciosos os argumentos relativos aos custos implicados e à democraticidade da medida. O Ténis é disto um bom exemplo dado que o sistema de sensores com recurso a visualização de imagens electronicamente simuladas só se aplica nas grandes competições e apenas nos dois courts principais. Não acredito que a FIFA, a EUFA, e as Ligas nacionais não tenham meios para implementar um sistema deste tipo. Mais, não seria em meu entender obrigatoriamente necessário ou mesmo recomendado que o "painel de júri" fosse constituído por árbitros da modalidade e por essa razão viesse a constituir um custo mais. Dado que esse júri não estaria a julgar interpretações das regras mas sim dados objectivos (tais como: o contacto foi fora ou dentro da área? A bola esteve ou não dentro da baliza? O jogador estava ou não adiantado no momento do passe? Houve agressão ou não?), qualquer cidadão dotado de inteligência media tem capacidade para executar essa função. E em abono da verdade quantas vezes vemos ex-árbitros ou comentadores, supostos "peritos" em futebol, dizer ou escrever autenticas barbaridades perante quem os ouve ou lê. Não há muito tempo, concretamente no último jogo de José Mourinho pelo Chelsea, o árbitro anulou indevidamente um golo ao Chelsea por pretenso fora de jogo. Eu e alguns amigos meus que visionávamos o jogo, logo nos apercebemos do erro. Os dois comentadores televisivos só ao fim de 10 minutos e após 6 ou 7 repetições conseguiram identificá-lo. E aquelas situações em que perante a repetição das imagens qualquer pessoa com olhos de ver, vê que o jogador foi tocado, e o comentador fica a insistir durante toda a transmissão, e apesar das inúmeras repetições que claramente mostram o contrário, que o adversário não lhe tocou e ele se fez simplesmente ao penalty? Para não falar do caso mais absurdo e ridículo que é o daqueles quatro ex-árbitros de futebol que analisam o mesmo jogo e as mesmas jogadas polémicas, com toda a certeza através do recurso a imagens televisivas, e não raras vezes apresentam julgamentos completamente díspares? Por vezes nem na interpretação da regra estão de acordo, mas isso, pela gravidade que encerra é melhor até esquecer. Por tudo isto defendo que não deveriam sequer ser árbitros ou ex-árbitros a fazer parte desse "painel de júri" mas preferencialmente elementos da sociedade civil com algum treino específico mas neutros (sem vícios) os quais aleatoriamente seriam seleccionados, assim a modos que os jurados dos tribunais americanos, para o exercício pontual dessa função. Ainda no que respeita à argumentação da FIFA, não quero sequer entrar no debate relativo ao "erro humano" do árbitro, já que isso daria pano para mangas. Basta pensar nas arbitragens de mundiais como o da Coreia e Japão, e a quem "serviu" o "erro humano" de alguns árbitros sem nível e sem qualquer experiência que foram nomeados para jogos da maior importância. A Itália e a Espanha com certeza ainda não se esqueceram. Foi também falacioso o argumento dos árbitros Pedro Henriques e Duarte Gomes relativamente à potencial demissão dos árbitros das suas responsabilidades caso se viesse a recorrer ao uso de tecnologias para os assistir nas suas decisões. Ao contrário, os árbitros sabendo-se protegidos por meios tecnológicos fiáveis, teriam muito mais tranquilidade e coragem para assumir riscos. Um exemplo paradigmático nesta área: há tempos questionei um árbitro da Liga relativamente à lei dos fora de jogo e das directivas que recebem relativamente aos respectivos critérios de implementação. Muito concretamente quis saber se os árbitros são ou não encorajados a deixar jogar em caso de dúvida e beneficiar o ataque, e se o são, então porque o não fazem? A resposta foi que sim que são encorajados a tal, mas de imediato veio o um esclarecimento que explica por exemplo o diferencial entre o numero de golos no futebol nacional e as médias de outros campeonatos como o Inglês, etc. Esse mesmo árbitro disse-me que no entanto os "nossos" árbitros auxiliares preferem correr o risco de assinalar indevidamente um fora de jogo duvidoso ao contrário de deixar passar um existente e assim vir a viabilizar um golo irregular. O raciocínio é portanto, melhor ser réu numa jogada cujo desfecho não se pode rigorosamente prever (poderia ser ou não golo ninguém o pode provar), do que réu num golo irregular que foi validado por um erro seu. Ora o facto de o árbitro auxiliar saber que em caso de errar ao não assinalar um potencial situação de fora de jogo estaria sempre coberto pelo recurso à visualização das imagens, só poderá agir em beneficio do jogo e do espectáculo. O outro lado da história não existiria obviamente, ou seja o jogo não pararia para se confirmar se um fora de jogo assinalado tinha sido ou não mal assinalado, mas pela argumentação acima torna-se claro que este tipo de erro tenderia a diminuir pelo simples facto de o arbitro auxiliar se sentir mais protegido no risco do possível erro. Muito mais haverá com certeza a argumentar e obviamente a melhorar no que se relaciona com esta temática mormente no que ao detalhe diz respeito. Penso no entanto ser claro que o caminho a seguir deverá sempre ser o do progresso e nunca o da estagnação. Sendo verdade que o futebol é um dos maiores negócios à escala mundial, não deixa de ser verdade também que os fenómenos de descredibilização que o atormentam face ao aumento da qualidade das coberturas televisivas e ao consequente maior escrutínio às decisões das equipas de arbitragem, têm afastado muita gente dos estádios e dos ecrãs. E o desporto espectáculo é um tipo de indústria que não sobrevive sem elevados sharings e estádios cheios. E será bom que os "senhores do futebol" percebam que estamos numa época em que as mudanças são vertiginosas, um tempo em que nada pode ser tomado por garantido. José Casanova
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